terça-feira, 13 de março de 2012

Nosso primeiro encontro foi lindo, de súbito. Como um desses eventos sublimes que a vida nos acomete. Ele estava de repouso como quem não quer nada. À primeira vista nada tinha a me oferecer. Dizia pertencer a outra, mas meu olhar – e coração - ao encontrá-lo teve certeza: serás eternamente meu. Foi um caso de amor avassalador. Cada palavra saltada aos olhos representava uma poesia. Era como se cada uma delas estivesse pouco a pouco me devassando sutilmente e revelando em mim o não imaginado, o não vivido. Ele tinha nome estranho, mas seus silêncios me envolviam. Alguns anos se passaram desde esse nosso último encontro. Quase havia me esquecido de seus galanteios (filosóficos?), mas novamente nossos caminhos se cruzaram. Ele agora anda sempre ao meu lado e todo dia releio alguma de suas palavras. Hoje ele me disse: “ mas como é possível observar alguma coisa deixando à parte o eu? De quem são os olhos que olham?” (Palomar, Calvino)

quinta-feira, 1 de março de 2012

Ontem me despedi da Angústia durante meu encontro com o Mar. Ele, com sua brisa doce e olhares luminosos, me orientou no adeus. Disse-me: “A Angústia é uma ilusão à toa”. Com um simples sopro ele acalantou meu pensamento e ainda me trouxe de presente a Alegria vestida de fadinha e linda de tanto sorrir transbordava flores rubras. Durante nosso encontro contou-me das estórias vividas e das frutas colhidas. A Alegria é assim: vem sempre de passagem, mas quando surge é doce e terna. Seja sempre bem vinda fadinha.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Ultimamente retomei meu convívio com a Ansiedade. Ela vez por outra me aparece de súbito, com um olhar gatuno que faz pulsar meu corpo e o coração acelerar. Sua aparição sempre acompanhada de minha Adultês que, não sei o porquê, teima em acreditar nessa amizade. A Ansiedade é assim: deslumbrante, de olhos avassaladores. É uma tormenta. Chega como uma chuva de prazer e se transforma em uma tempestade. A Adultês, coitada, segura a mão da Ansiedade com ingênua alegria e sem perceber é jogada em um mar de angústias. Pobre menina. Eu, na tentativa de acalantá-la vou ao seu encontro. Ela com olhares marejados e corpo trêmulo me diz: “Não consigo deixar de ser ingênua”. E eu repito cansada: “Eu sei.”.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Uma vez por ano reencontro com minha infância. E a cada ano a impressão é que ela fica mais distante. Em meu último reencontro ela tentou dizer adeus. Eu, com o choro tolhido pela minha adultês, tentei ouvir suas razões por essa despedida tão precoce. Minha menina por fim me disse: "eu sempre estarei ao seu lado".

sábado, 14 de maio de 2011

"Já se sabe como é quando alguém se separa de um ambiente onde viveu por muito tempo: quando se volta a longos intervalos se estranha o lugar, parece que aquelas calçadas, aqueles amigos, aquelas conversas de café ou são tudo ou não podem mais ser nada, ou se acompanha tudo isso dia a dia ou não se consegue mais entrar, e a idéia de dar sinal de vida depois de muito tempo dá como que um remorso, e é afastada. (...) Mas nos últimos tempos, nessa atitude negativa para com sua cidade natal, entrava, além do estado de espírito definido agora mesmo, também aquela sensação de desamor geral tomara conta dele, e que depois ele identificaria com o progredir da miopia."

Calvino
A aventura de um míope
in: Amores difíceis.

quarta-feira, 2 de março de 2011


"Um pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando

A colombina entrou num butiquim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim

Dizendo: pierrô cacete
Vai tomar sorvete com o arlequim

Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o pierrô aconteceu assim
Levando esse grande chute
Foi tomar vermute com amendoim"
Noel Rosa

É carnaval. A Melancolia é minha amiga e a Colombina me fascina, mas meu estado de adultês tolhe toda e qualquer rima.

domingo, 13 de setembro de 2009


Não sei sua estória. Nem seu passado. Mesmo assim meu coração, ao vê-lo, sente-se acalentado. De quimeras mil meu pequenino voa com seu dirigível. E em um mundo fantástico saboreia flores azuis e nuvens de borboleta. Em meio as estrelas brinca de ser soldadinho. Com tamanho encantamento, meu olhar naufraga no horizonte de lírios rubros. Obrigada, Pequenino.